terça-feira, 24 de julho de 2012

A epidemia de obesidade juvenil: A atividade física é relevante?


Nas últimas décadas, observou-se um aumento mundial significativo na prevalência da obesidade juvenil. Apesar de as causas dessa epidemia ainda não serem claras, sabe-se que a redução no tempo gasto em atividades físicas e o aumento desse em atividades sedentárias como assistir televisão e brincar com jogos no computador são fatores importantes. O aumento da atividade física é um componente importante de qualquer programa de controle de peso. Esse programa deveria incluir elementos que proporcionem um gasto energético significativo. Por outro lado, a inclusão de um treinamento de resistência é eficaz no aumento de massa magra. As crianças não fazem atividades físicas "porque isso é saudável"; elas precisam ter uma gratificação imediata para se tornarem mais ativas. Isso pode ser alcançado pela promoção de atividades que divirtam as crianças.

Definindo quem é sobrepeso e quem é obeso


Os termos "sobrepeso" e "obesidade" são freqüentemente usados como se fossem sinônimos, mas não são. Ambos denotam excesso de peso corporal mas a obesidade é um estágio mais avançado que o sobrepeso. As definições de obesidade e os critérios para se determiná-la dependem muito do método usado para sua determinação. O ideal seria medir ou avaliar a percentagem de gordura corporal por meio da prega cutânea, do peso do corpo submerso na água, ou de técnicas de absorciometria por raio X com dupla energia (DEXA). O excesso de 30% de gordura corporal é geralmente usado como critério para indicar a obesidade.
Na ausência de ferramentas para se estimar a percentagem de gordura corporal, usa-se medidas mais simples de peso e altura. O índice mais usado para definir a presença de sobrepeso e obesidade, baseado em peso e altura, é o Índice de Massa Corporal [IMC = peso (kg) dividido pela altura ao quadrado (m2)]. Para adultos, IMC de 25-29 kg/m2 indica sobrepeso e IMC = 30 kg/m2, obesidade. Entretanto, esses pontos de corte não são válidos para crianças e adolescentes. Baseados em dados de mais de 97.000 indivíduos de diversos países, os pontos de corte para adolescentes são menores que os de adultos e são ainda menores para crianças (Cole e col., 2000). Por exemplo, o ponto de corte para um adolescente de 15 anos é 28 kg/m2 e para um garoto de 8 anos, 23 kg/m2. Os pontos de corte para sobrepeso nessas faixas etárias são 23 e 18 kg/m2, respectivamente.
Apesar da popularidade do IMC, deve-se ter em mente que esse índice não diferencia uma pessoa cujo excesso de peso corresponde a um excesso de gordura corporal daquela onde o excesso deve-se à presença de mais massa magra. Este inconveniente é principalmente relevante para atletas, cujas massas muscular e magra podem variar significativamente. Para esse grupo, deve-se tentar medir a percentagem de gordura corporal.
O objetivo deste artigo é descrever, resumidamente, o rápido aumento da obesidade em crianças e adolescentes, resumir os resultados de trabalhos sobre as possíveis causas dos níveis epidêmicos da obesidade juvenil, e rapidamente discutir as abordagens com relação à prevenção e ao tratamento dessa doença. A maior parte dos trabalhos que trata do aumento da prevalência da obesidade usaram o IMC.

 
REVISÃO DA LITERATURA

 A epidemia de obesidade juvenil

Nos últimos trinta anos, observamos um aumento significativo na prevalência da obesidade juvenil. (Neste artigo, "juvenil" será usado coletivamente para crianças e adolescentes.) Por exemplo, como mostra a Tabela 1, a prevalência da obesidade e do sobrepeso juvenil nos EUA aumentou expressivamente de 1965 a 1995, e de maneira mais rápida entre os meninos.
TABELA 1. Aumento na prevalência de obesidade juvenil nos Estados Unidos, nos últimos 30 anos, comparando dados das pesquisas nacionais NHANES I (National Health and Nutrition Examination Survey), de 1965, com a NHANES III, de 1995. Dados de Troiano e col. (1995). A obesidade foi avaliada de acordo com os percentis do IMC.

Um estudo realizado em todo o território canadense mostrou que houve um aumento acentuado na prevalência do sobrepeso e da obesidade juvenil entre 1981 e 1996 (Tremblay & Willms, 2000). O aumento foi mais significativo nas faixas etárias mais jovens. Por exemplo, entre meninos de 7 anos de idade houve um alarmante aumento de seis vezes na obesidade e de três vezes no sobrepeso. A taxa de aumento da obesidade juvenil é consideravelmente maior que a de adultos canadenses (Tremblay e col., 2002). Esse rápido aumento da obesidade juvenil não ocorre apenas nos países tecnologicamente desenvolvidos (Livingstone, 2001) mas também em sociedades menos desenvolvidas nas quais a desnutrição costumava ser prevalente (Seidell, 1999). A Organização Mundial da Saúde considera esse fenômeno uma Epidemia Global (Organização Mundial da Saúde, 1997).

Possíveis causas da epidemia de obesidade

As causas da atual epidemia de obesidade juvenil não são claras (Bar-Or e col., 1998; Jebb & Moore, 1999; Livingstone, 2000). Conceitualmente, há três causas possíveis: mutações genéticas, aumento da ingestão calórica e redução do gasto energético. A hipótese genética pode ser rejeitada porque é improvável que mutações consigam se expressar em período de tempo tão curto. Entretanto, não se pode excluir a possibilidade de uma interação entre genes e meio-ambiente, nas quais mudanças na atividade física ou no consumo alimentar sejam afetadas pela disposição genética de uma pessoa
(Clément & Ferré, 2003).
Nos Estados Unidos, é improvável que o aumento da ingestão calórica seja a causa geral da obesidade porque dados do período da década de 70 a de 90 não confirmam um aumento no consumo total de energia da maioria das pessoas na faixa etária entre 2 e 19 anos de idade (Troiano e col., 2000). As únicas exceções foram do grupo de meninas adolescentes, cuja ingestão realmente aumentou. A mesma pesquisa mostrou um declínio no percentual de consumo de gordura nas dietas de ambos os sexos. Diferentemente dos Estados Unidos, o surgimento da obesidade juvenil em países menos desenvolvidos parece ser paralelo a um aumento no consumo alimentar.
Se, na verdade, a ingestão calórica e de gorduras não aumentou nas últimas décadas, a causa mais provável para explicar a atual epidemia de obesidade na América do Norte é a redução do gasto energético por causa da redução da atividade física de rotina (Bar-Or e col., 1998; Troiano e col., 2000). Apesar de ser plausível, não há dados suficientes para confirmar essa hipótese (Jebb & Moore, 1999).

Os efeitos benéficos da intensificação da atividade física

Apesar de esta revisão se concentrar nos efeitos do aumento da atividade física, deve-se perceber que a conduta adequada para tratar a obesidade juvenil também deveria incluir mudanças na dieta e no comportamento (da criança e de seus pais) (Bar-Or e col., 1998; Epstein e col., 1996; Sothern e col., 2000). Há muitos benefícios documentados sobre o aumento da atividade física na obesidade juvenil (Epstein & Goldfield, 1999; Gutin & Humphries, 1998). As tabelas 2 e 3 mostram um resumo dos resultados globais disponíveis na literatura sobre os efeitos do aumento da atividade física na composição corporal e nas outras váriaveis, respectivamente. A abrangência dessa revisão não permite uma ampla discussão desses efeitos. Para mais detalhes, veja as revisões mais recentes (Bar-Or e col., 1998; Epstein & Goldfield, 1999; Gutin & Humphries, 1998; Sothern, 2001).

TABELA 2. Resumo de trabalhos publicados sobre os efeitos do aumento da atividade física na composição corporal


TABELA 3. Resumo de trabalhos publicados sobre os efeitos do aumento da atividade física nas outras variáveis.


 
Atividade física espontânea

Uma questão importante que não tem recebido a devida atenção. Saber quanto os programas de atividade física prescritos podem mudar a atividade física espontânea da criança obesa, ou seja, a atividade que não foi prescrita, mas que será incorporada pela criança. Usando a técnica de água marcada ( "padrão ouro" para medir o gasto energético total), mostrou-se que o aumento no gasto energético total durante um programa de exercícios aeróbicos de quatro semanas foi duas vezes maior que o esperado para sessões estruturadas de ciclismo que foram realizadas pelos indivíduos (Blaak e col., 1992). Outro trabalho, usando a acelerometria, monitoração cardíaca e uma entrevista, apontou um aumento da atividade física espontânea e do gasto energético no dia seguinte à realização do exercício estruturado no laboratório (Kriemler e col., 1999). Parece, portanto, que crianças obesas ficam "energizadas" por um programa que estimula a atividade física e adotam um estilo de vida mais ativo. Essa questão requer mais pesquisas.



Fonte: http://www.gssi.com.br

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